Vera Magalhães: Entrevista de Fabrício Queiroz é insuficiente para quem passou duas semanas protelando

  • Por Vera Magalhães
  • 27/12/2018 08h27
Reprodução Fabrício Queiroz passou a maior parte do tempo descrevendo poblemas de saúde e falando que foi perseguido pela imprensa, e muito pouco tempo falando a respeito daquilo que era realmente importante: o porquê, entre 2016 e 2017, ele movimentou na sua conta mais de R$ 1 milhão

A entrevista concedida foi Fabricio Queiroz ao SBT foi bastante insuficiente para quem passou duas semanas protelando uma explicação. Queiroz passou a maior parte do tempo descrevendo poblemas de saúde e falando que foi perseguido pela imprensa, e muito pouco tempo falando a respeito daquilo que era o foco da conversa: por que entre 2016 e 2017 ele movimentou na sua conta mais de R$ 1 milhão.

Faltando pouco mais de um minuto para terminar a conversa, ele afirmou que é um homem de negócios e que compra e revende carros.

Essa é uma explicação bastante singela, que ele poderia ter dado antes, inclusive. A considerar que seja verdadeira, essa explicação é de fácil comprovação, afinal, compra e venda de carros é algo que exige muita documentação: tem todo o trâmite de cartório e que precisa estar declarado no imposto de renda. Quanto à recuperação dos carros, que ele afirmou que fazia, existe, então, uma oficina que precisa ser contatada e que pode fornecer explicações.

Mas tudo isso não explica por que tinha tantos depósitos e saques de pessoas dos próprios gabinetes. Ele vendia esses carros para os assessores? Por que os depósitos sempre eram feitos próximos ao pagamento dos salários da Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro)?

Na entrevista, de 22 minutos, ele relatou seus problemas de saúde e disse que tosse com frequência — mas passou os 22 minutos da conversa sem tossir. Então, dia 26 de dezembro era um bom dia para ele ter ido ao Ministério Público, que o convocou quatro vezes — nós só sabíamos de dois não comparecimentos, mas ele tratou de falar que foram quatro. Mas Fabrício Queiroz terá a oportunidade, ainda nessa semana, de se explicar, já que está sendo convocado novamente.

Fica, portanto, muito evidente que a entrevista não era para esclarecer sua movimentação financeira, mas sim para se apresentar como alguém que é vitima tanto de problemas de saúde, quando de perseguição da imprensa, e também para isentar a família Bolsonaro de suas movimentações financeiras.

Ele se apresenta como homem de negócios e que faz dinheiro, mas afirma isso depois de ter se queixado de precisar arcar com muitos gastos da família inteira e não ter posses — disse, inclusive, que está morando na comunidade. Afirmou que a futura primeira-dama, Michelle Bolsonaro, é uma pessoa muito boa e que não tem nada a ver com os cheques depositados na conta bancária dela.

Fala que não era fantasma nem laranja, mas que prestava serviços de segurança para as filhas e para a mulher de Flávio Bolsonaro — embora isso não seja tarefa de um assessor parlamentar. Queiroz também fez questão de dizer que esteve com os Bolsonaros durante todo o tempo, mas repetiu que não falou com a família durante todo esse tempo — mesmo dizendo que não tem nada a esconder.

Uma das doenças que ele disse que está diagnosticada, apesar de não ter feito biopsia, é um câncer, algo seríssimo que se relata a uma pessoa com quem teve uma relação de trabalho e de amizade tão profunda e por tanto tempo.

Ou seja, tem essas pequenas contradições nessa entrevista, que foi bastante genérica e na qual ele teve a intensa preocupação de tirar a família Bolsonaro de toda e qualquer implicação na sua movimentação financeira.