Emílio a Moro: fala iguala gregos a troianos, guelfos a gibelinos

  • Por Reinaldo Azevedo/Jovem Pan
  • 14/03/2017 08h49

Escrevi já quatro textos sobre o que se afigura cada vez mais provável: as campanhas podem passar a ser financiadas por um fundo público, já que as doações privadas, dados o andamento da Lava Jato e as escolhas feitas pelos procuradores, estão amaldiçoadas.

Dá-se de barato que praticamente todas elas são, direta ou indiretamente, fruto da propina e da negociata. Ora, se o fundo será público, obviamente, a disputa para a Câmara terá de se dar por voto em lista.

Acho uma coisa e outra ruins. Mas o sistema em curso, obviamente, é muito pior. Hoje, a disputa eleitoral está exposta ao crime organizado em sentido estrito.

O juiz Sergio Moro ouviu, por videoconferência, duas testemunhas nesta segunda no processo que envolve o ex-ministro Antonio Palocci, que está em prisão preventiva. Trata-se de Emílio Odebrecht, pai de Marcelo e patriarca do grupo, e de José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União. E, creiam, saem ainda mais reforçadas aquelas duas possibilidades.

Qual é a síntese do depoimento de Emílio, que negou que o grupo tivesse um departamento para cuidar de propinas? Esta:
“Existia isso [caixa dois], e sempre foi um modelo reinante no país, que veio até recentemente. Houve impedimento a partir de 2014, 2015. Mas, até então, sempre existiu, desde a época de meu pai [Norberto], a minha época, e também de Marcelo, todos os que foram executivos do grupo. Eu mesmo, na minha colocação, tive dois responsáveis”.

Vale dizer: para ele, não há diferença entre guelfos e gibelinos, entre gregos e troianos, entre maragatos e ximangos…

Eis aí. O que o depoimento de Emílio faz — e creio que, do seu ponto de vista, assim de fato se deu — é igualar todo mundo. Afinal, entende-se, todos os partidos agiam da mesma maneira, operavam pelos mesmos critérios, levavam dinheiro por fora. Convenham: segundo o bolso de quem doa o dinheiro de forma irregular, a moral de quem recebe pode ser irrelevante.

Ah, sim: o empresário afirmou que tudo indica que Palocci atuou, de fato, na captação de recursos irregulares para o PT. Afirmou não ter a certeza de que fosse ele o único “Italiano” (na lista dos apelidos). Mas era um deles.

Vamos lá! A empreiteira foi a principal fonte de recursos da estrutura criminosa montada pelo PT? Bem, as delações não deixam a menor dúvida. O próprio Marcelo disse em depoimento que estimava em R$ 300 milhões os valores repassados ao partido entre 2008 e 2014.

A empresa já havia dado antes dinheiro pelo caixa dois a partidos e políticos? Ora, é claro! Desde o tempo do pai, Norberto, assegura Emílio. Alguém duvida?

É evidernte que esse depoimento contribui, inclusive aos olhos da opinião pública, para diluir as responsabilidades específicas do PT. Ora o grupo Odebrecht não tinha, certamente, controle da máquina criminosa petista. O que os executivos sabiam, e em detalhes, é para onde ia o dinheiro.

O que resta como corolário, que será sabiamente explorado pelas esquerdas?
– corrupção sempre existiu;
– o PT apenas fez o que todos faziam;
– essa era a natureza do sistema.

Não duvido de que essa seja a real opinião de Emílio, com base, ele deixou claro, na sua própria experiência.

O que é que se perde, então, nessa perspectiva? Ora, a natureza golpista do PT e seus crimes particulares. Ainda que verdade fosse que todos os outros assaltavam antes o caixa e em igual monta, o fato é que foi para o ralo — e não por culpa de Emílio Odebrecht, mas da Lava Jato — a natureza especialmente criminosa do PT.

Eu alertava para esse risco desde 2014, quando começou a Lava Jato. A questão era óbvia demais para ser ignorada. E se ignorou o óbvio.

Como diria o conselheiro, as consequências vêm sempre depois…

Seguem os dois vídeos com a íntegra do depoimento.