Criador do Catraca Livre diz que errou ao apontar preconceito em fantasias de carnaval

  • Por Jovem Pan
  • 24/07/2018 14h42
Jovem PanDebate entre os dois foi mediado por Claudio Tognolli

No dia 7 de fevereiro, o Catraca Livre publicou uma reportagem que viralizou nas redes sociais. Com o título “7 fantasias para não usar neste Carnaval”, o texto afirmava que algumas vestes comumente usadas pelos foliões durante a festa poderiam ser preconceituosas. Eram elas: homem vestido de mulher, índio, cigano, empregada doméstica ou enfermeira sexualizadas, “nega maluca”, Iemanjá e muçulmano. Ao ser questionado sobre o assunto em entrevista ao Pânico, o criador do site, o jornalista Gilberto Dimenstein, disse que eles erraram na abordagem.

“Eu sou judeu. Se alguém me falar uma ‘piada’ de judeu, eu me sinto ofendido. As pessoas não têm o direito de debochar das outras pelo que elas são. Chamar um negro de ladrão é liberdade de expressão? Não! Isso é racismo. É isso que algumas pessoas confundem. Mas quer saber? Com a coisa da fantasia acho que o Catraca errou. Agora é o seguinte. O politicamente correto não é isso. Isso pode ser um erro do politicamente correto. O politicamente correto é fazer as pessoas serem respeitadas”, declarou. “Por trás da piada tem a violência. O juíz é a lei. O Catraca defende que as pessoas têm direitos e que esses direitos têm que ser respeitados”, completou.

A declaração apareceu em um debate promovido nesta terça-feira (24)  no programa entre ele e o líder do Movimento Brasil Livre (MBL) Kim Kataguiri. Embora tenham discordado em uma série de questões, especialmente nas discussões sobre os limites do humor e sobre um suposto “totalitarismo” promovido no país pelos governos petistas, os dois também mostraram ter pontos em comum. Ambos se consideram liberais, por exemplo, e acreditam na menor presença do Estado na política e na economia – cada um da sua maneira.

“O que temos levemente em comum, apesar de eles não admitirem, é que o Catraca tem uma visão liberal em vários pontos. Acreditamos que o regime menos ruim é a economia de mercado desde que ela tenha compensação. Não aceitamos nenhum regime autoritário, seja ele de esquerda ou de direita. Mas o Catraca não tem partido. Nessas eleições temos uma posição excepcional. Não vamos ser neutros. Criamos a campanha ‘Bolsonaro não’. Isso significa não à homofobia, ao machismo, ao autoritarismo. Mas não temos partido. O MBL tem e respeito isso”, disse Dimenstein.

“Temos mesmo. O MBL não é um veículo de mídia. A gente atua em três pontos: na comunicação, para transmitir as ideias que a gente acredita, na militância, para levar pessoas a participar da política, e na representação institucional, para disputarmos as eleições e termos representantes (…). Eu sou pré-candidato a deputado federal. O MBL sempre se posiciona. Agora, nosso posicionamento está sendo para impedir a eleição do Lula e do Ciro, as que consideramos mais perigosas”, contrapôs Kataguiri.

Privatizações? “Lula Livre”?

Em seguida os convidados entraram mais a fundo nessas questões. Dimenstein afirmou que valoriza, sim, os avanços das instituições brasileiras em relação ao combate à corrupção, mas ressaltou que apenas isso não mudará os problemas estruturais do país. Já Kim, por sua vez, aproveitou o tema para defender as privatizações de empresas estatais.

“O Brasil conseguiu coisas extraordinárias no combate à corrupção, mas enquanto houver esse sistema presidencialista de coalizão não vamos resolver. Esse é o problema. Enquanto houver esse ‘toma lá dá cá’ a questão não será pessoal. O sistema leva à barganha. Pode se pagar com dinheiro, com ministério… Sempre vai ter troca”, começou o jornalista. “Nesse ponto eu concordo. Tem que privatizar tudo e regulamentar”, sugeriu o pré-candidato.

“Você vai se surpreender, mas acho ok essa ideia. Acho que quanto menos Estado menos corrupção. O papel do Estado é um só. Ele tem uma grande função: investir o máximo que pode em educação. O que equaliza os direitos é a educação. Outra coisa. O que me incomoda no Brasil não é a corrupção apenas, mas o desperdício de dinheiro. O quanto se paga de aposentadorias a funcionários públicos, as folhas de funcionários gigantescas, as concorrências mal feitas… O Brasil é o país do desperdício. Nossa meta nacional tem que ser gestão com melhor educação”, respondeu Dimenstein.

Outros assuntos debatidos foram o conservadorismo, o combate (ou não) às fake news nas redes sociais, os regimes controversos (ou seria ditatoriais?) de alguns países latinos e até mesmo a campanha #LulaLivre. Todos os vídeos podem ser vistos no canal do Pânico no YouTube.