Após “aula” em Wembley, antídoto contra linha de 5 vira obsessão de Tite para Copa

  • Por Jovem Pan
  • 26/02/2018 11h00
Wilton Junior/Estadão ConteúdoTite tem uma nova obsessão (e essa imagem é a prova disso): encontrar soluções ofensivas para furar defesas que joguem com linha de 5

Kyle Walker, Joe Gomez, John Stones, Harry Maguire e Ryan Bertrand. Todos alinhados. Um ao lado do outro. O “muro” erguido pela Inglaterra à frente do goleiro Joe Hart parou o Brasil de Neymar, Philippe Coutinho e Gabriel Jesus. Mas o empate por 0 a 0 no amistoso de 14 de novembro, em Wembley, foi encarado como um “aprendizado” por Tite. Tanto que, a quatro meses da Copa, o treinador tem uma nova obsessão: encontrar soluções ofensivas para furar defesas formadas por uma última linha com cinco jogadores.

A revelação foi feita pelo próprio técnico, em entrevista exclusiva ao repórter Marcio Spimpolo, da Rádio Jovem Pan.

Questionado sobre qual seria o atual estágio da Seleção, Tite disse ser difícil dimensionar, mas fez questão de ressaltar que “há sempre um objetivo de evolução”. Em seguida, falou sobre a importância de se enfrentar “outras escolas” e “principalmente aquele sistema das equipes que procuram usar a linha de 5 defensiva”.

“São equipes que agridem menos, que se fecham mais atrás, e contra as quais a gente tem de encontrar soluções ofensivas para furar esses bloqueios”, explicou.

O amistoso contra a Rússia, dia 23 de março, em Moscou, é tido como “fundamental” justamente por causa disso. “A Rússia é uma equipe que joga em um sistema de linha de 5, que nós enfrentamos uma vez só… Precisamos sentir as dificuldades que esse tipo de sistema pode nos proporcionar”.

A preocupação de Tite tem um porquê: das três rivais do Brasil na primeira fase do Mundial, duas (Suíça e Costa Rica) já jogaram com linha de 5. A outra (Sérvia), por sua vez, até tem mais aptidão por propor o jogo, é verdade, mas também já apelou ao sistema que alinha dois laterais a três zagueiros para se defender contra adversários mais poderosos.

Por isso, não se surpreenda se Tite testar novas formações ofensivas nos amistosos contra Rússia (23 de março) e Alemanha (27 de março), os últimos antes da convocação final à Copa. Coutinho no lugar de Renato Augusto, abrindo espaço para a entrada de Willian pela ponta direita, é uma variação estudada. Fernandinho na vaga de Renato Augusto, dando mais liberdade para os avanços de Paulinho, é outra. Nem mesmo a utilização de dois atacantes de ofício, como Gabriel Jesus e Roberto Firmino, é descartada.

Abaixo, confira TUDO o que Tite disse na entrevista exclusiva à Jovem Pan!

Faltam quatro meses para a Copa… Em que estágio a Seleção se encontra?

“É difícil estabelecer em que ponto a Seleção está em uma escala de 0 a 10, por exemplo. Porque há sempre um objetivo de evolução, um desafio que eu, enquanto técnico, coloco aos jogadores no sentido de crescimento e que, agora, passa por uma etapa de enfrentamento de amistosos contra equipes europeias, com outras escolas, outros sistemas… E principalmente aquele sistema das equipes que procuram usar a linha de 5 defensiva. São equipes que agridem menos, que se fecham mais atrás, e contra as quais a gente tem de encontrar soluções ofensivas para furar esses bloqueios”.

A gente costuma dizer que grandes times também precisam “saber sofrer”. Depois de tantas vitórias até certo ponto fáceis nas Eliminatórias, é isso o que você busca nesse momento?

“Eu penso que o momento é de passar por diferentes escolas, diferentes níveis de equipe, diferentes características… A Inglaterra, por exemplo, foi estrategicamente diferente do Japão. E eu explico: o Japão, em teoria, tem uma equipe menos técnica que a Inglaterra, o que nos fazia acreditar que jogaria mais atrás. Mas o que eles fizeram? Jogaram adiantados, agredindo, marcando lá em cima. Aí fomos jogar contra a Inglaterra. ‘Pô, a Inglaterra vai jogar na sua casa, em Wembley, vem de empate com a Alemanha, não vai ficar só atrás!’. Mas, na hora do jogo, ela foi essencialmente uma equipe que se postou atrás e apostou nos contra-ataques. Então, essas escolas e essas diferenças são importantes. Agora, vem o jogo com a Alemanha, a atual campeã do mundo, se renovando, dentro de casa… Também será um teste importante. Com a Rússia? Uma equipe que joga em um sistema de linha de 5, que nós enfrentamos uma vez só… Outra experiência fundamental, até para que possamos sentir as dificuldades que esse tipo de sistema pode nos proporcionar.”

Até que ponto essas observações vão influenciar na sua próxima convocação?

“Vai ser decisivo. E digo isso sem assegurar nada porque, ao contrário do que vem sendo ventilado, eu não asseguro ninguém. Eu falo em tendências, o que é diferente. Quem vem apresentando um futebol de alto nível nessas duas últimas temporadas traz um peso muito forte. Os atletas que foram constantemente convocados e que jogaram bem nas vezes em que foram convocados saem com um peso muito forte. Isso aí gera em torno de 16, 17 atletas. E tem outros seis, sete que estão procurando e disputando de forma leal. Eu tenho dito a eles: joguem muito em seus clubes, que a gente vai estar observando!”.

Restam dúvidas em todos os setores, então?

“Sim! Está aberto… Está aberto em goleiros, em defensores, em meio-campistas e em atacantes. Eu não posso fechar, não posso ser inconsequente. Daqui a pouco aparece um atleta jogando em alto nível, fazendo uma grande temporada, e eu não posso não convocar… Não, não! Eu não me dou esse direito.”

Em outras Copas, jogadores que faziam mais de uma função ganhavam preferência na lista de convocados. Você pensa em agir assim?

“Inicialmente, eu trago um para cada função específica. Porém, versatilidade é um acréscimo. O Fernandinho, por exemplo, joga em uma primeira e em uma segunda função de meio-campo. Ele só não joga na função do meia que chega mais à frente… Mas aquela função que é do Paulinho, do Renato Augusto, do Giuliano e, por vezes, do Coutinho, por dentro, ele tem condições de fazer. É a origem dele no Atlético-PR, foi assim no Shakhtar e foi assim no Manchester City da temporada passada. Esse ano, não, mas ele pode (jogar) eventualmente, porque tem características para isso. Foi só para exemplificar… Se tem jogadores com essa característica, pode, sim, ser uma vantagem na hora de decidir. Vai que eu tenho dois jogadores do mesmo nível, com a mesma gama de experiência, mas um é mais versátil que o outro… Pode, sim, ser um peso determinante.”

Até que ponto te preocupam as últimas lesões do Gabriel Jesus?

“Eu conversei com o Fábio Mahseredjian (preparador físico) na semana passada, e ele me mandou uns vídeos. Uns vídeos de finalizações, e o Gabriel me pareceu bastante desenvolto. São estágios, e ele está evoluindo. Eu sei do cuidado que o City tem tido de não apressar etapas, independente do estádio da Champions, para que ele possa estar com saúde e habilitado para retornar. Isso é bom.”

Você acha que houve exagero nas recentes críticas ao desempenho do Neymar no PSG?

“Só quem tem um pouquinho de experiência no futebol sabe que tu não monta uma equipe e ela sai jogando na plenitude do desempenho máximo logo no primeiro ano. Quem vê o City jogando hoje tem de lembrar que o Guardiola precisou de mais de um ano para reformatar o grupo e conduzi-lo a jogar assim. O que eu posso falar em relação ao Neymar, como conhecimento de causa, é sobre o tempo em que eu estou à frente da Seleção Brasileira. Os cartões que ele levou, o nível de jogo que ele teve, as assistências, os gols, a participação nos jogos… Pega o último ano dele na Seleção e nos clubes: é o melhor momento, a melhor fase da carreira do Neymar!”.

É justo fazer mais cobranças a atletas mais valiosos, como é o caso do Neymar, por exemplo?

“Não! Não é justo! Isso se chama inveja, isso é outra coisa! A gente carrega o peso, e eu não vou ser mais digno ou menos digno porque ganho menos ou mais… Não, não! Cada um de nós temos as nossas responsabilidades! Aliás, até falando sobre o Neymar… Eu nunca tive problema disciplinar em termos profissionais uma vez sequer com ele! Profissionalmente, em todas essas convocações, o Neymar foi extremamente profissional e correto. Eu devo ressaltar isso. E colocar sobre ele uma responsabilidade maior em cima de resultados é desumano! O que é do Neymar? É a responsabilidade do improviso, da qualidade técnica no último terço de campo, da finalização, de ser um atleta que desequilibra… Claro! Isso é a característica dele, e o que vamos esperar mais dele. Mas também vamos esperar um conjunto bom para que o resultado aconteça. Senão é desumano!”.

Como é ser o cara que reergueu a Seleção?

“Nesse momento, o sentimento é de muito orgulho, por estar no maior estágio profissional que um técnico pode ter, e, ao mesmo tempo, de muita expectativa e muita autocobrança, no sentido de ser justo no acompanhamento dos atletas… E, às vezes, até injusto, porque, daqui a pouco, eu vou ter três atletas de alto nível para uma mesma posição e vou ser obrigado a deixar um de fora por ter necessidade maior em outro setor.”

Você vai deixar a Seleção depois da Copa?

“Depois eu te respondo! Deixa eu terminar (risos).”